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Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Manuel Bandeira

Recife

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Há que tempo que não te vejo!Não foi por querer, não pude.Nesse ponto a vida me foi madrasta,Recife.

Mas não houve dia em que não te sentisse dentro de mim:Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,Recife.

Não como és hoje,Mas como eras na minha infância,Quando as crianças brincavam no meio da rua(Não havia ainda automóveis)E os adultos conversavam de cadeiras nas calçadas(Continuavas província,Recife).

Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas,Sem Arrais, e com arroz,Muito arroz,De água e sal,Recife.

Um Recife ainda do tempo em que o meu avô maternoAlforriava espontaneamenteA moça preta Tomásia, sua escrava,Que depois foi nossa cozinheiraAté morrer,Recife.

Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro?Meu sonho era acabar morando e morrendoNa velha casa do Monteiro.Já que não pode ser,Quero, na hora da morte, estar lúcidoPara te mandar a ti o meu último pensamento,Recife.

Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea!Nem os ossos nem o busto.

Que me adianta um busto depois de eu morto?Depois de morto não me interessará senão, se possível,Um cantinho no céu,“Se o não sonharam”, como disse meu querido João de Deus,Recife.

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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