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Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Leandro Gomes de Barros · O Primeiro sem Segundo

A Peleja de Leandro Gomes com uma Velha de Sergipe

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Eu ainda estava orelhudoCom estes versos que façoPorque nunca achei poetaQue me fizesse embaraçoPorém uma velha agoraQuase me quebra a cachaça

A velha fez-me subirOnde nem urubu vaiAndei numa dependuraJá está cai ou não caiAinda chamei tio o gatoTratei cachorro por pai

Quando partiu foi babandoO corpo vinha tremendoAntes de dar boa noiteDe longe me foi dizendo:"Meu amigo eu venho metê-loEntre um quente e dois fervendo"

Eu sei que o senhor é duroEu cá sou da mansidãoPorém só pode salvar-seSe eu lhe der a certidãoPois o boi na terra alheiaAté as vacas lhe dão

Eu andava nos meus negóciosNo estado de SergipeUma noite me hospedeiEm casa de um tal FelipeAonde havia uma velhaDa serra do Araripe

Disse-me o dono da casa:— Eu aqui tenho um colossoUma poetisa velhaQue dá em poeta moçoQuem faz verso nesta terraEstá hoje comendo grosso

Eu disse: — Senhor FelipeGaranto a vossa mercêQue neste planeta terraNão há mulher que me dêO velho olhou para mimE perguntou-me: — Por quê?

E disse: — Digo-lhe jáMoleque não me dá vaiaParola não me intimidaNem pabulagens me ensaiaE nas unhas dessa velhaNão há duro que não caia

Disse o velho: — Sr. BarrosA velha é prova de fogoDiscute com qualquer umE não precisa de rogoEu disse: — Traga ela cáA boca é quem faz o jogo

O velho Felipe disse:— Venha cá dona ManhosaSe apronte para verA questão mais perigosaA velha de lá soltouUma risada gostosa

A velha disse: — Já vouE com pouco mais saiuEntão chegando na salaTorceu a cara e cuspiuSentou-se num banco velhoTomou tabaco e tossiu

Eu quando vi a marmotaAlta, seca e carrancudaTirar-me uns olhos cinzentosSe conservando sisudaEu disse com meus botõesNão há santo que me acuda

Então perguntou ali:— Felipe para que me quer?Chamou-me com tal vexameQue nem aprontei-me sequer!— Para mostrar-lhe o escritorDe peso de uma mulher

A velha cravou-me a vistaE fez um calcarejadoOlhou-me de baixo acimaBotou os quartos de um ladoRosnou e partiu a mimDe chapéu de sol armado

Chegou e disse: — Sr. BarrosEu desejava encontrá-loPorque pelos seus escritosNão deixo de censurá-loSó quem não tem consciênciaDeixará de criticá-lo

Eu disse: — Minha senhoraSão os revezes da sorteO gênio tem dois destinos:É um fraco e outro forteUns blasfemam contra a vidaOutros aplaudem a morte

Perguntou ela: - Por que?Fala o senhor de mulher?Não aprendeu desculparAs faltas que uma tiver?Nem a sua própria mãeVocê não ira sequer

Respondi: — Minha senhoraIsto não quer dizer nadaEu não falo sobre a honraDe uma donzela ou casadaDigo apenas, a mulherÉ uma carga pesada

Ela suspirou e disse:— Fique certo meu amigoQue para qualquer mulherCasamento é um perigoCasar-se com certos homensNão dar-se maior castigo

Eu disse a ela: — ColegaVocê pode calcularUma mulher fica em casaO homem vai trabalharCom o suor de seu rostoGanho para ela estragar

A velha disse: — Não háMarido sem mau costumeQuando não é cachaceiroÉ vadio e tem ciúmeNestas condições assimNão há mulher que se arrume

Eu disse: — Minha senhoraO homem é um inocenteTrabalha para viverAté morrer ou ficar doenteEla que fica em casaEstraga danadamente

Sai logo de madrugadaVai ao campo trabalharA mulher fica deitadaSem nada a incomodarDe nove para dez horasÉ que vai se levantar

A velha diz isto assim:— É coisa que não convémQuem trabalha o dia inteiroHá de descansar tambémA mulher não é de ferroNem escrava de ninguém

— A senhora fique certaO que digo é com razãoA mulher geme sem dorE gesta sem precisãoCasamento é para o homemÉ ascarosa prisão

Disse a velha: —- Meu senhorNão há marido que sirvaPor melhor que a mulher sejaTrabalhadora e ativaEle traz a vista nelaÉ capaz de a comer viva

Eu disse: — Minha senhoraMarido nenhum faz issoSacrificar-se por elaIsso é claro e bem vistoEla diz com seus botõesCarrego a madeira, Cristo

Disse a velha: — Vossa mercêNão parece ser casadoSe achou mulher que coisseEu lamento o seu estadoComo também me pareceQue o senhor foi enjeitado

Eu aí pensei um poucoE disse com meus botões:Essa cabra velha temMiseráveis expressõesAgora me deu o títuloDe filho de dez tostões

Disse a velha: — Porque achaPesado assim a mulherE diz que é um animalQue nele não há misterSó por ela lhe pedirO que em casa não tiver?

Levanta que a mulher pedeVerdura, fruta e toucinhoBanha, massa de tomateAlho, pimenta, cominhoSe não pedir ao maridoHá de pedir ao vizinho?

O senhor diz que a mulherDe todas formas atrasaPorque o pires quebrou-seO bule largou a asaA chaleira está velhaNo fogo fura-se e vaza

Não querendo despesaProcure um jeito qualquerFaça de uma cuia um pratoE de um espeto talherDeixe de comprar fazendaViva nu com a mulher

Eu disse dentro de mimO que serpente assanhadaQual seria a cascavelQuem pariu essa danadaFiz logo sinal da cruzDisse: votes excomungada

Lhe disse: — A senhora sabeQue a mulher é uma cruzE sofre mais do que CristoO marido que a conduzÉ um cego no desertoVaga sem guia e sem luz

Disse ela: — E a mulherA que ponto vem chegar?Haverá maior sentençaDo que uma se casar?Só ela pensa no genroQue a mãe tem que suportar

Eu disse: — Minha senhoraAinda não ouvir dizerQue um genro neste mundoFizesse a sogra sofrerSó esse nome de sograFaz ele todo tremer

A velha disse: — O senhorÉ muito livre em falarPõe defeito em quem criouUma filha para te darVocê agradece tantoQuem paga em maltrator

O senhor chora a despesaQue com a família temPara que foi se casar?Não obrigou ninguémA mulher está na razãoDe fazer queixa também

Ele vai para o trabalhoVolta a hora que quiserDeixando com que em casaPode ordenar a mulherE escolher da cozinhaA comida que quiser

Vem cansado chega em casaDeita-se e vai descansarEla vai para cozinhaFazer almoço e jantarDepois da mesa está postaA mulher vai o chamar

Acorda-o com muito jeitoTrata-o com muito carinhoDiz o jantar está prontoVamos jantar meu negrinhoEu esperei por vocêVocê não janta sozinho

Me diga agora senhorO que quer que a mulher façaAlém de criar a famíliaSuportar mais a desgraçaTer um marido vadioQue jogue e beba cachaça

Quando no fim da semanaVai o homem fazer a feiraGasta o dinheiro das comprasNo jogo e na bebedeiraA mulher passando em casaCom fome a semana inteira

Porque ele não traz nadaA pobre infeliz não comeSe os pais não morassem pertoEla teria que passar fomePois o marido lhe trouxeCachaça, empurrão e nome

Eu pergunto-lhe: — A senhoraTeve em algum tempo marido?— Tive quatro disse elaCada qual mais atrevidoAinda dou graças a DeusEles já terem morrido

Eu disse: — Minha senhoraEu quero lhe confessarInfeliz de um desses quatroQue chegasse a escaparOs sofrimentos de todosQualquer pode calcular

Ela disse: — Sim, senhorNo brando o senhor se estendeNão venha com panos mornosAonde tem quem entendeQuem por si julgar a mimJá vê que assim não me ofende

Eu não fui tão mal casadaComo senhor. está pensandoTive poucas desavençasSempre estava tolerandoTive muita paciênciaMeu gênio sempre foi brando

Mas meu primeiro maridoFez-me demais esta assim:Para casar-se com outraTencionava me dar fimO segundo envenenou-seE não era o mais ruim

O terceiro desgostouPor eu não ser muito alvaDizia sempre por foraQue eu o envergonhavaSabe o que fez uma vez?Quis me vender como escrava

O quarto era homem sérioDizia ser bom maridoEsse só faltou fazer-meBeber chumbo derretidoRoubou-me para jogarSapatos, xale e vestido

E assim mesmo o senhorSó se refere à mulherContar as faltas do homemIsso o senhor não querEu tenho lembrançaDigo tudo que um tiver

Eu disse: — Vossa mercêÉ uma fera no campoBafejo de sua bocaOnde bater tira o tampoSeu pensamento é a cóleraE sua língua sarampo

Disse a velha: — Sim senhorVocê gosta de ferirAgrava a quem não lhe ofendeE pode até lhe servirE desses que quer dizerPorém não gosta de ouvir

Então eu lhe perguntei:— Já acabou de falar?— Não principiei agoraInda tenho o que falarEu sou velha neste mundoNão ando por ver andar

Eu disse: — Também sou velhoSou corrido e traquejadoEu tenho visto as misériasQue no mundo tem se dadoE milhares de mulheresAs manhas têm me ensinado

Uma mocinha solteiraDana-se para namorarCom mesuras e carinhosFaz o homem se levarPara iludi-lo, choraE sorri para o matar

A mulher é o objetoA quem eu quero mais bemNão há quem conte as maldadesQue a mulher consigo temTodos acreditam nelaEla não crê em ninguém

Então a velha me disse:— O homem é maliciosoEntre os homens verdadeiroTira-se o mais mentirosoCheio de sofismaçõesImpuro pecaminoso

Quando a velha se calouQue deu-se fim à contendaEu disse: Só no infernoSe achará desta fazendaFoi o diabo sem dúvidaQue mandou-me esta encomenda

Eu ainda não tinha achadoQuem fizesse eu me calarMas a demanda da velhaFez até eu me engasgarBotou-me em cantos tão feiosQue eu não julguei mais voltar

Quando foi no outro diaArrumei-me, fui emboraCom medo que a tal serpenteTornasse a vir cá foraJurei não voltar maisAonde o tal diabo mora

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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