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Leandro Gomes de Barros · O Primeiro sem Segundo

A Seca do Ceará

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Seca as terras as folhas caem,Morre o gado sai o povo,O vento varre a campina,Rebenta a seca de novo;Cinco, seis mil emigrantesFlagelados retirantesVagam mendigando o pão,Acabam-se os animaisFicando limpo os curraisOnde houve a criação.

Não se vê uma folha verdeEm todo aquele sertãoNão há um ente d'aquelesQue mostre satisfaçãoOs touros que nas fazendasEntravam em lutas tremendas,Hoje nem vão mais o campoÉ um sítio de amargurasNem mais nas noites escurasLampeja um só pirilampo.

Aqueles bandos de rolasQue arrulavam saudosasGemem hoje coitadinhasMal satisfeitas, queixosas,Aqueles lindos tetéusCom penas da cor dos céus.Onde algum hoje estiver,Está triste mudo e sombrioNão passeia mais no rio,Não solta um canto sequer.

Tudo ali surdo aos gemidosVisa o aspectro da morteComo a nauta em mar estranhoSem direção e sem NorteProcura a vida e não vê,Apenas ouve gemerO filho ultimando a vidaVai com seu pranto o banharVendo esposa soluçarUma adeus por despedida.

Foi a fome negra e cruaNódoa preta da históriaQue trouxe-lhe o ultimatumDe uma vida provisóriaFoi o decreto terrívelQue a grande pena invisívelCom energia e ciênciaAutorizou que a fomeMandasse riscar meu nomeDo livro da existência.

E a fome obedecendoA sentença foi cumpridaDescarregando lhe o gládioTirou-lhe de um golpe a vidaNão olhou o seu estadoDeixando desemparadoAo pé de si um filinho,Dizendo já existissesPorque da terra saíssesVolta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavéricaQue já não pode falar,Estreitando o filho ao peitoSem o poder consolarLança-lhe um olhar maternoSoluça implora ao EternoInvoca da Virgem o nomeEla débil triste e loucaApenas beija-lhe a bocaE ambos morrem de fome.

Vê-se moças elegantesAtravessarem as ruasUmas com roupas em tiraOutras até quase nuas,Passam tristes, envergonhadasDa cruel fome, obrigadasEm procura de socorrosNas portas dos potentados,Pedem chorando os criadosO que sobrou dos cachorros.

Aqueles campos que eramPor flores alcatifados,Hoje parecem sepulcrosPelos dias de finados,Os vales daqueles riosAqueles vastos sombriosDe frondosas trepadeiras,Conserva a recordaçãoDa cratera de um vulcãoOu onde havia fogueiras.

O gado urra com fome,Berra o bezerro enjeitadoTomba o carneiro por terraPela fome fulminado,O bode procura em vãoSó acha pedras no chãoPõe-se depois a berra,A cabra em lástima completaO cabrito inda penetraProcurando o que mamar.

Grandes cavalos de selasDe muito grande valorQuando passam na fazendaProvocam pena ao senhorComo é diferente agoraAquele animal de que outr'oraCausava admiração,Era russo hoje está pretoParecendo um esqueletoCarcomido pelo chão.

Hoje nem os pássaros cantamNas horas do arrebolO juriti não suspiraDepois que se põe o solTudo ali hoje é tristezaA própria cobra se pesaDe tantos que ali padecemOs camaradas antigosPassaem pelos seus amigosFingem que não os conhecem.

Santo Deus! Quantas misériasContaminam nossa terra!No Brasil ataca a secaNa Europa assola a guerraA Europa ainda dizO governo do paísTrabalha para o nosso bemO nosso em vez de nos darManda logo nos tomarO pouco que ainda se tem.

Vê-se nove, dez, num grupoFazendo súplicas ao EternoCrianças pedindo a DeusSenhor! Mandai-nos inverno,Vem, oh! grande naturezaExaminar a fraquezaDa frágil humanidadeA natureza a sorrirVê-la sem vida a cairResponde: o tempo é debalde.

Mas tudo ali é debaldeO inverno é soberanoO tempo passa sorrindoPor sobre o cadáver humanoNem uma nuvem apareceAlteia o dia o sol cresceDeixando a terra abrasadaE tudo a fome morrendoAmargos prantos descendoComo uma grande enxurrada.

Os habitantes procuramO governo federalImplorando que os socrraNaquele terrível malA criança estira a mãoDiz senhor tem compaixãoE ele nem dar-lhe ouvidoÉ tanto a sua fraquezaQue morrendo de surpresaNão pode dar um gemido.

Alguém no Rio de JaneiroDeu dinheiro e remeteuPorém não sei o que houveQue cá não apareceuO dinheiro é tão sabidoQue quis ficar escondidoNos cofres dos potentadosIgnora-se esse meioEu penso que ele achou feioOs bolsos dos flagelados.

O governo federalQuerendo remia o NortePorém cresceu o impostoFoi mesmo que dar-lhe a morteUm mete o facão e rola-oO Estado aqui esfola-oVai tudo dessa maneiraO município acha os troçosAjunta o resto dos ossosManda vendê-los na feira.

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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