As Proezas de um Namorado Mofino
Zé-pitada era um rapazQue em tempos idos haviaAmava muito uma moçaO pai dela não queria...O desastre é um diaboQue persegue a simpatia.
Vivia o rapaz sofrendoGrande contrariedadeChorava ao romper da auroraGemia ao virar da tardeA moça era como um pássaroPrivado da liberdade.
Porque João-mole, o pai delaera um velho perigoso,Embora que Zé-pitadaDizia ser revoltoso,Adiante o leitor veráQual era o mais valoroso.
Marocas vivia tristePitada vivia em ânsia,Ele como rapaz moçoNo vigo de sua infância,Falar depende de fôlegoPorém obrar é sustância.
Disse pitada a Marocas,Eu preciso lhe falarJá tenho toda certeza,Que é necessário a raptar,À noite espere por mimQue havemos de contratar.
Disse Marocas a Zezinho:Papai não é de brincadeira,Diz Zé-pitada, ora esta!Você pode ver-me as tripas,Poré não verá carreira.
Diga a que hora hei de ir,Eu dou conta do recadoInda seu pai sendo fogo,Por mim será apagado,Eu juro contra minh’almaQue seu pai corre assombrado.
Disse Marocas, meu paiTem tanta disposiçãoQue uma vez tomou um presoDo poder de um batalhão,Balas choviam nos ares,O sangue ensopava o chão.
Disse ele, eu uma vezFui de encontro a mil guerreiros,Entrei pela retaguarda,Matei logo os artilheiros,Em menos de dez minutosO sangue encheu os barreiros.
Disse Marocas, pois bemEu espero e pode ir,Porém encare a desgraça,Se acaso meu pai nos vir,Meu pai é de ferro e fogo,É duro de resistir.
Marocas não confiandoQuerendo experimentar,Olhou para Zé-pitadaFingindo querer chorar,Disse meu pai acordou,E nos ouviu conversar.
Valha-me Nossa Senhora!Respondeu ele gemendo,Que diabo eu faço agora?!...E caiu no chão tremendo,Oh! Minha Nossa Senhora!A vós eu me recomendo
Nisso um gato derrubouUma lata na dispensa,Ele pensou que era o velho,Gritou, oh!, que dor imensa!.Parece qu’stou ouvindoJesus lavrar-me a sentença.
A febre já me atacou,Sinto frio horrivelmente.Com muita dor de cabeça,Uma enorme dor de dente,Esta me dando a erisipela,Já sinto o corpo dormente.
Antes eu hoje estivesseEncerrado na cadeia,De que morrer na desgraça,E d’uma morte tão feia,Veja se pode arrastar-me,Que minha calça está cheia.
Por alma de sua mãe,E pela sagrada paixão,Me arraste por uma pernaE me bote no portão,A moça quis arrastá-lo,Não teve onde pôr a mão.
Ela tirou-lhe a botina,Para ver se o arrastava,Mas era uma fedentina,Que a moça não suportava,Aquela matéria finaJá todo o chão alagava.
Disse a moça: quer um beijo?Para ver se tem melhora?Ele com cara de choro,Respondeu-lhe, não, senhora,Beijo não me salva a vida,Eu só desejo ir-me embora.
Então lhe disse Marocas,Desgraçado!... eu bem sabia,Que um ente de teu calibre,Não pode ter serventia.Creio que fostes nascidoEm fundo de padaria.
Meu pai ainda não veioEu hoje estou sozinha,Zé-pitada aí se ergueu,E disse, oh minha santinha!A moça meteu-lhe o pé,Dizendo: vai-te murrinha!
E deu-lhe ali uma lata,Dizendo: está aí o poço,Você ou lava o quintalOu come um cachorro ensolso,Se não eu meto-lhe os pésNão lhe deixo inteiro um osso.
Disse ele, oh! meu amor!O corpo todo me treme,Minha cabecinha está,Que só um barco sem leme,Parece-me faltar o pulso,O Anjo da Guarda geme.
Então a moça lhe disse:O senhor lava o quintalOlhe uma tabica aqui!...Lava por bem ou por mal,Covardia para mim,É crime descomunal.
E lá foi nosso rapazSe arrastando com a lata,A moça ali ao pé dele,Lhe ameaçando a chibata,Ele exclama chorandoPor amor de Deus não bata.
Vai miserável de portaQuero já limpo isso tudo,Um homem de sua marcaPequeno, feio e pançudo,Só tendo sido criadoOnde se vende miudo.
Disse o Zé quando saiu:Eu juro por Deus agora,Ainda uma moça sendoFilha de Nossa Senhora,E olhar para mim, eu digo:Degraçada, vá embora.
Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.