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Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Bráulio Tavares

O Valor do Nordestino

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Quem vê tanta avenida e edifício,construção, catedral e viaduto,muitas vezes nem pensa no matutoque lutou com suor e sacrifício,exercendo a dureza de um ofíciosem pensar em medalha nem troféu,confiando que alguém de lá do céucompensasse o rigor do seu destino:se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Operário da construção civilem São Paulo ou no Rio de Janeirodá um duro danado o mês inteiroe o que ganha não chega a ser 3 mil.Vem de lá do Nordeste do Brasilfaz igreja, faz ponte, faz motel,faz a vila onde mora o crioléue faz casa de luxo pra granfino:se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Quando vem lá do norte ele não passade mais um joão-ninguém desempregadoe com tudo que vê fica espantado:com a pressa, o barulho e a fumaça.Vai dormir sobre o banco de uma praçasem emprego, a vagar de déu em déu,se cobrindo com as folhas de papelde um jornal semanário ou matutino...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

A cidade possui um ar cinzentoque irrita a garganta e o pulmãoe no meio da tal poluiçãose eleva a floresta de cimento:espigão de escritório e apartamentotem a torto e a direito, e a granel,e quem faz esas torres-de-Babelé o nortista migrante e peregrino:se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Ele fez pavilhões no Anhembifez Congonhas e Ibirapuera,Interlagos e a Via Anhanguera,o hotel Hilton, o Othon, o Normandie;ele fez os degraus do Morumbionde a massa alvinegra da Fielnos domingos faz festa e escarcéugrita gol, solta bomba e canta hino...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Quando vem lá do norte ele não traznem bagagem, nem roupa, nem dinheiro,traz somente a herança de vaqueiro:duas mãos, a coragem, nada mais...E constrói avenidas e canais,constrói posto pra Esso e para a Shell,constrói torre e antena da Embratele constrói a boate e o cassino.Se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Nordestino em São Paulo ou Guanabaraé tratado dum jeito diferenteporque lá no Nordeste toda a gentetem respeito a seu nome e sua cara.Mas no Sul é chamado “pau de arara”,“paraíba”, “baiano” ou “tabaréu”:quando fala com gente de anelsó lhe tratam por “zé” ou “severino”...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Nordestino no Sul é cidadãoque não vale uma prata de dez réis:quase sempre nem pode pôr os pésnesse prédio que fez com a própria mão.Vez por outra ele cai da construçãoe o destino se torna mais cruel:fica morto, a família fica ao léu,e ninguém diz o nome do assassino...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

A tarefa que exerce é muito dura,muito mais que a do próprio arquiteto:faz coluna, parede, piso e teto,e o cimento com a pedra ele mistura;faz com viga e concreto a estrutura,faz o forro, o lambril, põe o painel;quando acaba a pintura com um pincelchega um rico, e se torna o inquilino...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Houve um tempo em que o homem do sertãoquando estava faminto e injustiçadotinha um rifle, um facão bem amolado,e virava Corisco ou Lampião.Hoje em dia ele vai num caminhão,chega lá, constrói ponte e faz hotel;mas vai lendo um folheto de cordelque é pra não se esquecer de Virgolino...se não fosse o valor do nordestinoem São Paulo não tinha arranha-céu.

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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