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Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Bráulio Tavares

Meu Foguete Brasileiro

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Eu fiz um foguete de andar pelo espaçoigual um que eu vi pela televisão:não sei se era coisa da França ou Japãomas basta ver gringo fazer eu já faço!...Mandei buscar logo cem chapas de aço,latão, alumínio, ferro de soldar;dez mil arrebites para reforçara parte de fora da infra-estrutura:cem metros de longo, trinta de largura,e dez de galope voando no ar.

Por dentro o foguete tem compartimentos:setor de serviço, cabine da frente,motor titular e o sobressalentee pra equipagem mil apartamentos.Canhões telescópicos mais de duzentos,castelo de proa, sensor e sonar;torre de comando, luneta, radar,produto avançado da tecnologia:pretendo acabá-lo e sair qualquer diacantando galope e voando no ar!...

Botei no foguete diversas antenaspara captar raios infra-vermelhos.Na parte de cima um sistema de espelhosque amplia as imagens de estrelas pequenas.Motores na popa que servem apenaspra tudo aquecer, e pra refrigerar.Movidos a pura energia solartem computadores, TVs virtuais:mil inteligências artificiaisque cantam galope, voando no ar!

Maior do que tudo é a parte cargueiraque leva produtos de exportação:tem saca de açúcar, tonel de carvão,baú de café, tora de madeira.Tem pano de lenço, tem palha de esteira,xampu, querosene, bebida de bar,rede de dormir, colchão de deitar,cueca de seda, calcinha de renda...Achando quem compre, não tem quem não venda,cantando galope e voando no ar!

Na parte de cima da carga pesadatem carro, trator, “caterpilha”, caçamba,tem alegoria de Escola de Samba,carro de bombeiro, mangueira e escada.Tem locomotiva recém-fabricadae tem ponte pênsil pronta pra instalar;tem ônibus-leito, tanque militar,caixão de defunto, navio de guerra...Um pouco de tudo que existe na Terra,cantando galope e voando no ar!

Merece destaque o setor do varejo,com mercadorias de boa saída:barraca de praia, caixa de bebida,ganzá, cavaquinho, tantã, realejo...Lagosta, siri, corda de caranguejo,tem carne de sol e tem frutos do mar;cordão de ceroula, produtos do lar,catálogo novo, preço de primeira:daqui do país, só não vendo a bandeiraque vai hasteada, voando no ar...

Depois que enchi os porões do foguetecom mil toneladas de mercadoriapensei que de nada adiantariatrancar-me sozinho nesse palacete.Não sou sacerdote, nem sou um cadete,não sou da igreja nem sou militar...Sou só um poeta doidim pra casarganhar cafuné, um cheiro, um carinho...O diabo é quem sai viajando sozinhocantando galope, e voando no ar!

Olhei sem demora os mapas solaresdos meus alfarrábios de Astrologiae vi que de fato eu precisariade ter companhia nos céus estelares.Eu que planejava sair pelos aresbuscando planetas pra colonizar,somente podia vir a povoaros mundos distantes, sem ter empecilhos,com muitas mulheres me enchendo de filhos,cantando galope, e voando no ar...

Ainda por cima, era necessáriopor uma bem simples questão de harmoniaque as raças humanas que eu espalhariasurgissem de modo bem igualitário.Fiz logo um harém multi-milionárionos seis continentes mandei contrataras deusas mais belas que pude encontrare fiz delas todas as minhas mulheres:café da manhã com seiscentos talheres,cantando galope e voando no ar!

Criei no foguete diversos setores:indústria, comércio, serviços, lazer.Fazendas de soja pra dar de comeraos meus tripulantes e navegadores.Conjuntos de vilas pros trabalhadores,e até “piscinão” com água do mar;meu grande foguete é obra sem parmaior do que a China, melhor que o Japão;tão belo de ver que parece o Sertão,cantando galope e voando no ar!

Depois eu sentei no meu tamboretepuxei a lavanca, pisei no pedal,subi pro espaço com força totalfazendo tremer o motor do foguete.Passei bem por cima do Empire State,da Torre Eiffel, Monte Palomar;e vi pela tela se distanciara mancha azulada do nosso planeta...Pensei: “Minha Nossa! Aqui vai Tonheta,cantando galope e voando no ar!...”

Fiz logo uma escala no chão marcianovendi rapadura, comprei tungstênio,enchi os meus tanques de oxigênio,parti outra vez no começo do ano.Passei por Saturno, passei por Urano,cheguei lá no fim do Sistema Solar;desci em Plutão, tomei banho de mar,botei gasolina comum e azul,segui com destino ao Cruzeiro do Sulcantando galope e voando no ar!

Foi tanta viagem, foi tanta aventura,foi tanta Demanda, foi tanta Odisséia...Eu posso jurar à distinta platéiaque tudo isso foi a verdade mais pura.Também teve um pouco de literatura,história inventada para relaxar;mas eu que não minto não quero falare o resto eu só conto aqui pra vocêno próximo show, ou em outro CD,cantando galope e voando no ar!

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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