Pular para o conteúdo
Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Leandro Gomes de Barros · O Primeiro sem Segundo

O Imposto de Honra

Ouça o poema
0:00 / 5:45

O velho mundo vai mal.E o governo danadoCobrando imposto de honraSem haver ninguém honrado.E como se paga impostoDo que não tem no mercado?

Procurar honra hoje em diaÉ escolher sal na areiaGranito de pólvora em brasaInocência na cadeiaAgua doce na maréEscuro na lua cheia.

Agora se querem verO cofre público estufadoE ver no Rio de JaneiroO dinheiro armazenado?Mande que o governo cobreImposto de desonrado.

Porém imposto de honra?É falar sem ver alguémDar remédio a quem morreuTirar de onde não temEu sou capaz de jurarQue esse não rende um vintém.

Com os incêndios da alfândegaComo sempre tem se dadoDinheiro que sai do cofreSem alguém ter o tiradoMas o empregado é ricoFaz isso e diz: — Sou honrado.

Dizia Venceslau BrásCom cara bastante feiaDiabo leve a pessoaQue compra na venda alheiaO resultado daíÉ o freguês na cadeia.

Ora o Brasil deve à FrançaMas a dívida não foi minhaAgora chega ParisTira o facão da bainhaE diz: — Quero meu dinheiroInda que seja em galinha.

Seu fulano dos anzóisEntrou e meteu o pauPensou que tripa era carneE gaita era berimbauVão cobrar desse, ele diz,Quem paga é seu Venceslau.

Disse Hermes da FonsecaEu não tinha nem um x.Mas achei quem emprestasseTomei tudo quanto quisEmbora tivesse feitoA derrota do país.

Disse Pandiá Calógeras:— Há um jeito de salvarCobre.se imposto de honraQue ver dinheiro abrejar.Disse o Brás: — Ninguém tem honra,Como se pode cobrar?

Apareceu uma parteDo Rivadávia Correia:Não tem aqui entre nósDevido à cousa está feiaNão acha-se no senadoProcura-se na cadeia.

O major DeoclecianoDisse da forma seguinte:— Na cadeia do RecifeEu tive um constituinteEntre ele e outros maisInda se pode achar vinte.

Disse o Dr. Rivadávia:— Eu fiz doutor de 60Dei carta aqui a quadradoQue não escreve pimentaTem médico que receitandoProcura o pulso na venta.

Porém na minha algibeiraSessenta fachos ficaramEmbora tenha saídoMais burro do que entraramDei diploma a criaturasQue nem o nome assinaram.

E este imposto de honraEstá nas mesmas condiçõesTira-se bom resultadoOnde houver muitos ladrõesAté mesmo a meretrizLevará seus dez tostões.

Ela pagando impostoPode provar que é honradaTendo uns oito ou nove errosIsso não quer dizer nadaPassa por viúva alegreOu uma meia casada.

Qualquer ladrão de cavaloPaga o que for exigidoPorque dessa data cru dianteNão rouba mais escondidoCom o talão do impostoNão o prendem é garantido.

Pelo menos eu conheçoUm tal Chico GalinheiroQue disse: — Eu pago impostoTambém quem tiver poleiroNunca mais há de criar-seNem um pinto no terreiro.

Disse Marocas de todos:— Oh! cousa boa danadaEu compro um vestido pretoE grito: — RapaziadaMeu marido não morreuMas eu? sou viúva honrada.

Pago o imposto de honraBoto no bolso o talãoE grito no meio da ruaSe aparecer um ladrãoQue diga: — Não és honradaVeja se eu provo ou não.

Esses diabos que hojeMe chamam Marocas tinhaQuando eu pagar o impostoMe tratam por sinhazinhaSe for de tenente acimaChamam dona Maroquinha.

Disse um zelador da noite:— O imposto não é mauFoi uma lembrança ótimaAquela do VenceslauO diabo é se o talãoNão livrar ninguém do pau.

Se a cousa for como eu pensoE não tiver seus conformesNós operários noturnosTeremos lucros enormesCada corador por noiteNos rende dous uniformes.

Dormindo o dono da casaDar-se a busca no quintalInda a polícia chegandoNão pode nos fazer malPois nós pagamos impostoAo governo federal.

Disse um passador de cédula:— Ai eu não sei o que façaSe quem pagar o impostoPuder passar cédula falsaCom uma eu pago o impostoSai-me a receita de graça.

Disse Zé Frango: — Esse impostoChegando eu tenho que pagá-loO pago com sacrifícioMas também tenho o regaloQuem me chamava Zé FrangoHá de chamar Zeca-Galo.

Dizia João caloteiro:— Está muito bem isso assimBenza-te Deus, VenceslauDeus te ajude até o fimEu hei de ver se o comércioAinda cobra de mim.

Tem dia que lá em casaEu desespero da féOuço baterem na portaVou abrir e ver quem éAcho na porta escoradoO caixeiro do café.

Antes de desenganá-loChega o danado da vendaO sapateiro de um ladoE o turco da fazendaO recado do açougueA velha cobrando a renda.

Nisso chega outro diaboCom um recibo na mãoAntes de chegar, perguntaSe eu tenho dinheiro ou não.Ou o dinheiro ou a chaveManda dizer o patrão.

Eu pagando esse impostoFico disso descansadoQuando um bater-me na portaDigo puxe desgraçadoEu pago imposto de honraNão sou desmoralizado.

Embora roube de alguémO imposto hei de pagarMas todo mundo já sabeNa bodega que eu chegarNem pergunto pelo preçoÉ só mandar embrulhar.

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

Mais de Leandro Gomes de Barros

Ver todos →

Outros poemas em sextilha

Ver todos →