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Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Rogaciano Leite

Acorda, Castro Alves!

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(No Centenário do Poeta)

Condor, que é de tuas asasQue os astros arremessaram?As plumas da águia soberbaQue no infinito brilharam?Que é do teu grito altaneiroQue atravessava o nevoeiroPara vibrar junto a Deus?Renasce, Fênix altiva!Que outra senzala aflitivaPrecisa dos cantos teus!

Oh, sim! Foi Deus que em seu tronoEntre florões e alabastrosLevou-te, pássaro imenso,Para o ninho azul dos astros!Antes que a dor nos consumaFaze da lira uma pluma,Uma só... pra nos cobrir!E os trapos que nos restaremDaremos aos que chegaremCom as gerações do Porvir.

Acende o verbo de fogo!Vibra tua lira de ouro!Acorda os anjos no espaço!Transmite a Deus nosso choro!Dize lá pelo InfinitoQue na terra um povo aflitoPrecisa de remissão!Tu, que a Deus pediste tanto,Interpreta o nosso pranto!Conta-Lhe a nossa aflição!

Tu foste o “leader” de um povo,Libertador de uma raça;Mandaste o Trabalho aos campos,Trouxeste o Direito à praça!Pois vem ver quantas choupanasGuardando dores tiranas,Cheias de fome e suor!...Livraste os negros, outrora;Pois livra os brancos, agora,Que o prêmio será maior!

Não viste o escravo africanoLá no porão dos naviosDançando ao som do chicoteEntre gritos e arrepios?Vem ver — em promíscuos lares —Homens com os mesmos esgares,Irmãos no mesmo sofrer!— A Fome uivando nos tetos,— Enfermos e analfabetosSem pão, sem fé, sem prazer!

Tu já cantaste de TebasAs derrocadas colunas;Dos beduínos cansadosO pranto a correr nas dunas;Pois vem ver quanta desgraçaQue pelo mundo perpassaComo terrível simum…— A tragédia do operário!— O drama do proletário!— A luta do homem comum!

Vem ver o pranto da ciênciaQue os átomos desagregaE que o valor desse inventoSomente no mal se emprega!Que em vez de erigir colossosO sábio faz calabouçosPara seu próprio martírio…Esse insulto à NaturezaSerá luz? Será grandeza?Responde: “Não! É um delírio!”

Ó gênio, que nos deixasteA luz do teu pensamento!Toda a terra em que nascesteCelebra teu nascimento!Há cem anos a BahiaDeu-te — ó gigante — à Poesia,Deu-te — ó astro — ao Ideal!— Uma lanterna ao Escuro,— Uma legenda ao Futuro,— A glória ao vate imortal!

A voz dos negros do CongoCorrendo o tempo inda está,Para encontrar com o “Avante!”Dos soldados de Humaitá;E os desgraçados QuilombosEsperam inda os ribombosDo teu verbo — esse tambor…São mortos que andam dispersosPedindo a luz dos teus versos,Da tua lira, Condor!

Agora, mais do que nunca,Nós precisamos de ti!— Dos seringais do AmazonasAos extremos do Chuí —A voz do amargo momentoExige esclarecimento“No concerto universal”;Teus versos inda são ditosComo se fossem escritosPara o momento atual!

A Pátria da linda MusaPor quem morreste de amor,Chora debaixo do jugoDe Salazar — ditador! —E a tua pátria hebréiaDeve estar lá na JudéiaChorando à margem do Hebron,Vendo o mordaz calabouçoDecapitar o pescoçoDe seus irmãos do Sion!

As irmãs de Inez, a Linda,Tua saudosa espanhola,Repetem tuas endechasÀ sombra da castanhola!São Musas que não te viram,Lábios que nunca sentiramDo teu beijo a calidez…E elas choram com saudade,Sentindo a inútil vontade,Vontade... de ser Inez!

II

Ai! Deixa, vate, os páramos celestes!A roupagem de luz com que te vestes,Vem comigo a vagar…Esquece as espanholas e os noivadosE escuta as notas tristes, os dobradosDa orquestra popular!

Não sabes que Abdullah é soberano?Não vês que resplandece o VaticanoCheio de ouro e matizes?Pois rasga — como Cristo — esse teu mantoE com um trapo da ourela enxuga o prantoNo olhar dos infelizes!

Não fales a linguagem lá do OlimpoMas grita com teu verbo aceso e limpoAo povo, à multidão!Transformaram-se, apenas, as senzalas…E tu, poeta imortal, por que não falasDa nova Escravidão?!

Vem comigo! Olha as fábricas, as ruas…Nas calçadas estão criancinhas nuas,Talvez inda em jejum!Sobre o colo materno elas se arrastamMas dos lábios as tetas logo afastam…— Não há líquido algum!

Essas mães não têm leite! Os seios magrosSecaram-se-lhes, pois, aos dias agrosDe triste inanição!Os seus filhos famintos, descarnados,Poderiam ser doutos, magistrados…— São mais pobres que um cão!

Quanta dor vaza o seio estremecidoDa mãe cujo filhinho desnutridoMorre antes de falar!...A Inocência definha — flor do charco —E a Morte em cada cova deixa um marcoDe mágoa popular!

Lá no bairro o casebre é um ponto morto…— Fim da vida e do sonho — o desconforto,A dor, o sofrimento!...E a lua — essa espiã das noites fias —Cobre a choça infeliz com as ironiasDe um riso ermo e cinzento!

Ali, sob um espaldar de visões turvas,De palhas, rotas, de soleiras curvas,De chão áspero e frio,Uma prole, de músculos desfeitos,Reclama da Igualdade esses direitosQue a Lei guarda em seu brio!

Em derredor, as árvores paradasSão irmãs do infeliz! Dormem, geladas,Da noite à placidez…E a mãe, deitada à flor do úmido solo,Ressona com o filhinho sobre o colo,Expirando, talvez !...

O mar pergunta ao céu pela clareza…O céu pergunta ao mar pela grandeza…E a névoa cobre a lua!no reino do Poder há riso e festas…Mas nas cabanas sujas e modestasA trova continua!...

Nos leitos do hospital — no último termo!Cada vela acompanhou o olhar dum enfermoNuma prece final…E o filho desse pai desfeito em tosseTem como herança a tísica precoce,— Aguarda outro hospital!...

Nas ruas, ao ferver de enormes filas,Mulheres magras, a exibir mochilas,Famintas pedem pão…E o Câmbio Negro em cínicas risadasMostra os dentes — mandíbulas blindadas —Mordendo a multidão!

E eu pergunto por ti, cantor dos bravos,Das mulheres formosas, dos escravos,Da crença no Porvir…O meu eco se perde, não respondes…“Em que céus, em que estrelas tu te escondes?”Devias ressurgir!

A morte? Não há morte quando há glória!Vive o nome do morto sobre a História,Dos tempos ao correr…O sepulcro se cobre de grinaldas,As sementes do amor brotam nas fraldas,— É um eterno viver!

Olha o sol como bate nas campinas!Esse orvalho que rola das boninasAos beijos da manhã!Acorda, lá no céu, na Imensidade,E vem de braços com a Eternidade,— A tua grande Irmã!

Vem banhar neste sol a flor dos músculos!Ver as tardes no seio dos crepúsculosNum beijo tropical!E os ombros da floresta dando açoitesNas asas infinitas dessas noites,— Pássaro universal!

Desce, pois, grande vate, lá do Empíreo!A Bahia te espera num delírio,Orgulhosa de si…Pernambuco te vê, no céu azul,E as “belas filhas do país do sul”Inda esperam por ti!

Renasce! A tua lira é doce orquestra…Revive: Quem na lousa te seqüestraJunto ao pó dos mortais?...O mundo é um drama... Volta! Olha o proscênio!É tempo de voltar! Acorda, gênio!Já dormiste demais!...

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

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