Pular para o conteúdo
Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Ronaldo Cunha Lima

Habeas Pinho

Ouça o poema
0:00 / 1:59

Senhor Juiz,

O instrumento do “crime” que se arrolaNesse processo de contravençãoNão é faca, revolver ou pistola,Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdadeNão feriu nem matou um cidadãoFeriu, sim, mas a sensibilidadeDe quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,Instrumento de amor e de saudadeO crime a ele nunca se misturaEntre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantoresDos menestréis de alma enternecidaQue cantam mágoas que povoam a vidaE sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é cançãoÉ sentimento, é vida, é alegriaÉ pureza e é néctar que extasiaÉ adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.Mas seu destino, não, se perpetua.Ele nasceu para cantar na ruaE não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivoPara a alma da noite em solidão,Não se adapta, jamais, em um arquivoSem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noiteQue se sente vazia em suas horas,Para que volte a sentir o terno açoiteDe suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,Em nome da Justiça e do Direito.É crime, porventura, o infelizCantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,Será delito de tão vis horrores,Perambular na rua um desgraçadoDerramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia(a consciência assim nos insinua)Não sufoque o cantar que vem da rua,Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,Na certeza do seu acolhimentoJuntada desta aos autos nós pedimosE pedimos, enfim, deferimento.

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

Mais de Ronaldo Cunha Lima

Ver todos →

Outros poemas em outras formas

Ver todos →