Uma Noite na Fazenda
(A meu irmão José Bezerra Leite)
Deitado na rede alvinha,Namorando em lua cheia,Recordo o tempo que eu tinhaUma vida bem feliz…Mas, dos prazeres de outrora,Resta somente a saudadeQue me vem dizer agoraO que a Tristeza lhe diz.
E no balanço da redeChora comigo a violaSentindo essa mesma sedeQue sinto no coração…Do meu destino indecisoNasce uma aranha malvadaQue tece no meu juízoTeias de recordação.
A lua, apregando enfeiteNa sacristia do céu,Acende velas de leiteNos castiçais do Senhor;Como douradas agulhasCosendo a roupa do espaçoRelampejam as fagulhasDo vagalume aviador.
O Firmamento azulado,Incomensuravelmente,Se estende cobrindo o pradoCom seu majestoso véu;Como um disco de vitrola,De longe a lua pareceA boca de uma violaTocando o “baião” no céu.
A brisa acalenta os campos,A terra toda adormeceE os insones pirilamposBailam perdidos no ar…— Também perdido em amores,Bebendo o fel das saudades,Adormecido nas doresEu levo a vida a cantar!
Lá dentro, no seio ingenteDa folhagem tremulante,O caboré, tristemente,Canta também com saudade,Recordando as alegriasDo seu primitivo ninhoQue fora feito nos diasDa sua primeira idade.
A “mãe da lua” queixosa,Lá da cabeça de um tocoCanta com voz pesarosaComo quem sente uma dor…Um cão ladrando delira…E pela boca dos valesO vento brando suspiraPedindo beijos à flor!
As nuvens passam de leveComo velhinhas fiandeirasTecendo rendas de nevePara enfeitar o seu véu;Cada estrela se retrataNuma redoma de luzQual fosse um bilro de prataNas almofadas do céu!
Os galos entontecidos,Depois do primeiro sono,Vibram cantos transmitidosNa voz medrosa do vento;E quando dormem de novoAcordam sobressaltadosPensando que a lua é um ovoNo ninho do Firmamento.
Farto de luz, de saudade,De amor, de recordação,Eu contemplo a imensidadeDo céu… dos campos… da terra…Enquanto os grilos se calamO tetéu grita assustadoE as folhas secam estalamPelas quebradas da serra.
Assim, vai fugindo a noite,O sereno vai caindo,A frieza vai crescendoGerando a terra nervosa…E o corujão agoureiroProfetizando o futuroCanta no fim do terreiroUma canção pavorosa!
Ornejam bravos jumentos,Relincham gordos cavalos,Berram touros ciumentosNa porteira do curral;As ovelhas estremecem,As vacas mugem saudosasE os caprinos se enternecemNo seu afeto animal.
As estrelas do CruzeiroCom a cerimônia da luaSe escondem pelo nevoeiroDeixando pálidos rastros;Outras, fugindo de casa,Correm no espaço, enxeridas,Queimando estopim na brasaPara fazer medo aos astros!
Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.