Pular para o conteúdo
Biblioteca de Poesiarepente · cordel · cantoria
Zé da Luz · Zé da Luz

Confissão de cabôco

Ouça o poema
0:00 / 9:04

Seu duotô, sou criminoso.Sou criminoso de morte.Tou aqui pra mim intregá.Voimicê fique sabendo:- Quando a muié traz a sorteDe atraiçoá o isposoSó presta para se matá.

Nunca pensei, seu doutôQui a mão nêga do distino,Merguiasse as minhas mãoNo sangue dos assarcino!Vô li pidí um favôAnte de vossamercêMim butá daqui pra fora:- É a licença do doutôPr'eu li contá minha histora.

Sinhô dotô delegado,Digo a vossa sinhuriaQui inté onte fui casadoCum a muié qui im vidaSe chamô ROSA MARIA.Faz dez mês qui se gostemo,Faz oito qui fumo noivoFaz sete qui nós casêmo.Nós casêmo e nós viviaCuma pobre, é verdade,Mas a gente se sentiaRico de filicidade!

Pras banda qui nós morava,No lugá Chã da Cutia,Morava tombém um cabraChamado Chico Faria.Esse cabra, antigamente,Tinha gostado de Rosa,Chegaro, inté a sê noivo,Mas num fizero a "introza"Do casamento, prumodeMané Uréia de bode,Qui era padrim de MariaTê dismanchado essa prosa.

Entoce, o Chico Faria,Adispois qui nós casêmo,In cunversa, as vez dizia,Qui ainda mi dava fimPra se casá cum Maria.Dessa coisa eu sabia,Mas nunca dei importança.Tinha toda cunfiançaNa muié qui eu tanto amava,Ou mais mió, adorava...Cum toda a minha sustança!

Dispois disso, o meu custumeEra vivê trabaiandoSem da muié tê ciume.A muié pru sua vezNunca me deu cabimentoDeu pensá qui ela fizesseUm dia um farcejamento.

Mas, seu doutô, tome tentoNo resto da minha histora,Qui o ruim chegô agora:Se não me farta a mimora,Já faz assim uns três mêis,Qui o cabra, Chico Faria,Todo prosa, todo ancho,Quage sempre, mais das vêz,Avistava o meu rancho.Puralí, discunfiadoComo quem qué e não qué,Eu fui vendo qui o marvadoTentava a minha muié.Ou tentação ou engano,Eu fui vendo a coisa feia!Pru derradêro eu já tavaC'a mosca detrás da uréia.Os tempo foi se passandoE o meu arriceiamentoCada vez ia omentano.

Seu dotô, vá iscutano:Onte, já de tardezinhaO meu cumpade, Quinca Arruda,Mi chamô pra nós dançaNum samba - lá na Varginha,Na casa do mestre Duda.Mestre Duda é um cabôco,Um tocado de premêra.É o imboladô de côcoMió daquela rebêra.

Entonce Rosa Maria,Sempre gostou de samba,Mas, porém, de tardezinhaMe disse discunfiada,Qui pru samba ela não ia,Qui tava munto infadada,Percisava se deita...Eu fiquei discunfiadoCum a preposta da muié!Dispois qui tomei café,Cuage puro sem mistura,Cum a faca na cinturaFui pru samba, fui sambá.

Cheguei no samba, dotô.Repare agora, o sinhô,Quem era qui tava lá?O cabra Chico Faria.Qui quano foi me avistando,Foi logo mi preguntando:- Cadê siá dona Maria,Num veio não, pra dançá?- Não sinhô. Ficô im casa.Pru cabôco arrispondí.Senti, entonce uma brasaQueimano meu coração,Nunca mais pude tiráAs palavra desse cabraDa minha maginação.Perdí o gosto da festaE dançá num pude não.

O cabra, pru sua vezNum dançava, seu doutô.De vez im quando me oivaCum um oiá de traidô.Meia noite, mais ou meno,Se dispidino do povoDisse: - Adeus, qui eu já vô.Quando ele se arritirô,Eu tombem me arritireiAtraiz dele, sim sinhô.Ele na frente, eu atrais.Se o cabra andava ligêro,Eu andava munto mais!Noite iscura qui nem breu!Nem eu avistava o cabra,Nem o cabra via eu!Sempre andando, sempre andando.Ele na frente, eu atrais.Já nem se iscutava maisA voz do fole tocandoNa casa do mestre Duda!A noite tava mais pretaQui a cunciênça de Judá!Sempre andando, sempre andando.Eu fui vendo, seu doutô,Qui o marvado ia tumandoDireção da minha casa!Minha casa!... Sim sinhô!

Já pertinho, no terreroEu mim iscundí pru detraizDe um pé de trapiazêro.Abaixadim, iscundido,Prendi a suspiração,Abri os óio, os ouvido,Pra mió vê e ouviQua era a sua intenção.Seu doutô, repare bem:O cabra oiando pra traiz,Do mermo jeito, qui faizUm ladrão pra vê arguém,Num tendo visto ninguém,Na minha porta bateu!De lá de dentro uma voizBem baixim arrispondeu...Ele entonce, cá de fora:- Quem ta bateno sou eu!

De repente abriu-se a porta!Aí seu doutô, nessa horaA isperança tava morta,Tava morto o meu amô...No iscuro uma voiz falô:- Taqui, seu Chico, essa carta,Qui a tempo tinha iscrividoPra mandá pra voismicê.Pru favô num leia agora,Vá simbora, vá simbora,Qui quando chegá im casaTem munto tempo pra lê.

Quando minhas oiça ouviu,As palavra qui MariaDizia pru disgraçado,Eu fiquei amalucado,Fiquei quage cuma loco,Ou mio, cumo um cabôcoQuando ta chêi de isprito!Dum sarto, cumo um cabrito,Eu tava nos pés do cabraE sem querer dei um grito:- Miserave! E arrasteiMinha faca da cintura.Naquela hora dotô,Eu vi o Chico Faria,Na bêra da sipurtura!Mas o cabra têve sorte.Sempre nessas circunstançaOs home foge da morte.Correu o cabra, dotôTão vexado, qui dêxouA carta caí no chão!Dei de garra do papé,O portadô da traição!Machuquei nas minha mão,A honra, douto, a honraDaquela farsa muié!

Dispois oiando pra cartaTive pena, pode crer,De num tê prindido a lê.Nas letra alí iscrividaO qui dizia MariaPru marvado traidô.Tive pena, sim sinhô.Mas, qui haverá de fazêSe eu nunca prindí a lê?

Maria mi atraiçuô!Essa muié qui um dia,Juêiada nos pé do artáJurou im nome de DeusQui inquanto tivesse vida,Haverá de mim honráE mim amá cum todo amo.Cum perdão do seu doutô.Quando eu vi a miseraveNa iscurideza da noiteDos meu oio se iscondêSem dêxá nem sombra intéEntrei pra dentro de casaPra mi vingá da muié.

Douto, qui hora minguada!Maria tava ajuêiada,Chorando, cum as mão postaCumo quem faz oração.Oiando pra eu pedia,Pelo cali, pela osta,Pru Jesus crucificado,Pelo amo qui eu li amavaQui num fizesse isso não.Eu tava, doutô, eu tavaCego de raiva e paixão.Sem dizê uma palavra,Agarrei nas suas mão,Levantei ela pra ribaE interrei inté o cabo,O ferro da parnaíbaPru riba do coração!

Sarvei a honra, doutô,Sarvei a honra, apois não!Dispois qui vi a MariaCaí sem vida no chão,Vim fala cum vosmicê,Vim cunfessá o meu crimeE mim intregá as prisão.Se o sinhô num acreditaSe eu sô criminoso ou não,Tá aqui a faca assarcinaE o sangue nas minhas mão.Cumo prova da traição,Tá aqui a carta, doutô.Li peço um grande favô:Ante de vossa-sinhuriaMi mandá lá para prisãoMe lêia aqui essa cartaPr'eu sabê cumo MariaPerparava essa trição!

A Carta"Seu Chico:Chã da Cutia.Digo a vossa senhoriaQue só lhe escrevo essa cartaPru senhor ficar sabendoQue eu não sou a mulherQue o senhor tá entendendo.Se o senhor continuarCom os seus disbiques atrevidosO jeito que tem é contarTudo, tudo a meu marido.O senhor fique sabendoQue com seu discaramento,Não faz nunca eu quebrarO sagrado juramentoQue eu jurei nos pés do altar,No dia do casamento.Se o senhor é inxirido,Encontrou u'a mulher forte,O nome do meu maridoEu honro até minha morte!Sou de vossa senhoria,Sua criada.MARIA."

- Doutô! Doutô mi arrespondaO qui é qui eu tô ouvindo?Vosmicê leu a carta,Ou num leu, ta mi inludindo?- Doutô! Meu Deus! Seu doutô,Maria tava inucente?Me arresponda pru favo!Inocente! Sim, senhor!Matei Maria inucente!Pru que, seu doutô, pru que?Matei Maria somentePruque num aprendi a lê!Infiliz de quem num leuUma carta de ABC.Magine agora o doutô,Quanto é grande o meu sofrê!Sou duas veiz criminoso,Qui castigo, seu doutô!Qui mizera! Qui horrô!Qui crime num sabê lê!

Toque num verso para ouvir a partir dele. Leitura em voz sintética.

Mais de Zé da Luz

Ver todos →

Outros poemas em outras formas

Ver todos →